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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Caracterização de Agostinho

    Agostinho é uma criança filha da lavadeira Leandra, a "Machona". Trata-se de um "menino levado dos diabos", isto é, travesso, irrequieto e irreverente, "que gritava tanto ou melhor que a mãe". O seu caráter irrequieto acabará por o levar a um destino terrível. De facto, morre violentamente: quando brincava na pedreira, como habitualmente, com dois rapazitos da estalagem, desequilibrara-se e caíra de uma altura superior a duzentos metros. A descrição do seu corpo é particularmente crua: "Todo ele, coitadinho, era uma só massa vermelha; as canelas, quebradas no joelho, dobravam moles para debaixo das coxas; a cabeça, desarticulada, abrira no casco e despejava o pirão dos miolos; numa das mãos faltavam-lhe todos os dedos e no quadril esquerdo via-se-lhe sair uma ponta de osso ralado pela pedra."

Caracterização de Henrique, de O Cortiço

    Henrique é um jovem de 15 anos, proveniente de Minas Gerais, filho de um fazendeiro muito importante, possivelmente o melhor freguês que Miranda tinha no interior do país.
    Ele vai para o Rio de Janeiro para terminar os estudos, de modo a entrar na Academia de Medicina. É um rapaz "bonitinho, acanhadom com umas delicadezas de menina. Parecia muito cuidadoso no sestudos." Além disso, é poupado e a sua existência limita.se aos estudos, vivendo entre a casa e a escola ("Gastava muito pouco e só saía de casa para ir para as aulas."). Ou seja, estamos na presença de alguém disciplinado, dedicado aos estudos, reservado e prudente no que toca a finanças.
    No entanto, acaba por ser seduzido por Estela e envolve-se amorosamente com ela, sendo igualmente objeto de afeto por parte do velho Botelho, que os surpreende nos fundos do quintal certa noite.
    À medida que cresce, perde a timidez que o caracterizava quando viera para o Rio e torna-se um boémio, divertindo-se com os amigos e com prostitutas, como Pombinha, não se poupando a gastos. Todos estes aspetos evidenciam a transformação sofrida pelo jovem vindo do interior, de um meio conservador e protegido, em contacto com um meio bem diferente, o do Rio de Janeiro. O único traço que permanece é o de académico aplicado: frequenta o quarto ano de Medicina.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Caracterização do velho Botelho

    O velho Botelho mora na casa de Miranda, um pobre coitado de quase setenta anos, antipático, de cabelo branco, «curto e duro como uma escova, com barba e bigode do mesmo tipo".
    Já fora rico, graças ao comércio e ao tráfico de escravos, porém acabou por entrar numa espiral de fracassos que o conduziu à ruína financeira: "... foi perdendo tudo". Agora, velho e desiludido, vive graças à caridade de Miranda, de quem é amigo desde os tempos em que tinham sido colegas de trabalho na juventude.
    Botelho está a par das traições de Estela e o próprio marido, Miranda, costumava desabafar com ele o seu infortúnio no matrimónio, nomeadamente o desprezo que sentia pela esposa. O velho ficava contente com o facto de Miranda falar mal da consorte e concordava com ele. Ocasionalmente, a própria Estela não lhe escondia o desprezo e o nojo que dedicava ao marido, o que deixava Botelho ainda mais contente. Estamos, pois, na presença de uma figura mesquinha e cínica, que encontra satisfação nos conflitos e infelicidade alheios. Além disso, demonstra que a sua pretensa amizade por Miranda não é sincera, antes se devendo às suas necessidades.
    Experiente, nunca transmite a nenhum dos dois o que dizem um do outro, continuando a agir de forma dissimulada. Tanto é assim que certa noite surpreende Estela e Henrique envolvidos no fundo do quintal. Só aparece ao casal quando se separa, finge compreensão pelo caso amoroso ("acho isso a coisa mais natural do mundo!"), o que pode indiciar o seu caráter fingido, mas também pode sugerir a prática comum do adultério, de tal forma que se tornara quase natural. Na sequência, promete a Henrique guardar segredo acerca do seu envolvimento com Estela, aconselhando, inclusive, a envolver-se com mulheres mais velhas e não com "jovens donzelas", que lhe poderão causar problemas. Até lhe diz que está a fazer um favor ao próprio marido, pois faz com que a esposa fique de melhor humor e não aborreça o esposo, que necessita de descanso por causa do trabalho. Desta forma, Botelho incentiva o adultério de forma cínica, manipulando o inocente Henrique. Acrescenta ainda que deve evitar as prostitutas por causa das doenças e reafirma que necessita de se manter igualmente afastado das donzelas. Todo o diálogo entre o velho e o jovem é pautado por constantes gestos de carinho daquele ["(...) acho você simpático, porque acho você bonito!"),que sugerem a homossexualidade de Botelho.
    Deste modo, Henrique vê-se envolvidom do alto dos seus 15 anos, com uma mulher mais velha, o que nos coloca num quadro de pedofilia, e é desejado também por Botelho.
    Em determinado momento, começa a aproximar-se de João Romão, procurando tornar-se seu amigo, aproximação correspondida por parte do dono do cortiço. Na verdade, esta nova amizade era movida por interesse de ambos e o velho Botelho acaba por sugerir ao outro o casamento com Zulmirinha, a filha de Miranda e Estela, pois "Quem casar com Zulmira leva os prédios e ações do banco que estão no nome dela!...". Interesseiro, o velho pede a Romão vinte contos de réis para o ajudar a casar com a jovem.
    A concretização do casamento enfrenta um obstáculo: Bertoleza. Botelho sugere a João Romão que a mande embora e acaba por aceitar duzentos mil-réis para a denunciar como escrava fugida  a entregar aos herdeiros do homem de quem fugira, confirmando o seu caráter racista e abjeto: "Eu, para devolver negro fugido para o dono, estou sempre pronto."

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Benfica é campeão europeu de estafeta mista em corta-mato


José Carlos Pinto, Sheila Jebet, Salomé Afonso e Isaac Nader

 

Caracterização de Zulmirinha

    Zulmirinha, filha de Miranda e Estela, é uma menina muito pálida e franzina, pouco desenvolvida fisicamente, com doze para treze anos. Trata-se de uma típica carioca, com olhos grandes, negros e maliciosos.
    O velho Botelho caracteriza-a como um «bom partido», uma «ótima menina», tranquila, dona de uma educação esmerada ("uma educação de princesa") que fala francês, toca piano, sabe cantar e desenhar e «Costura perfeitamente!», ou seja, é uma jovem prendada, educada e uma fala do lar. Além disso, é dona de prédios e possui ações no banco, isto é, é rica, o que desperta o interesse de João Romão. Nesta fase da obra, a rapariga conta 17 anos e perdeu o ar deslavado e anémico, apresentando já formas femininas desenvolvidas ("... agora tinha seios e quadril.").

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Caracterização de Augusta Carne-Mole

    Augusta Carne-Mole era uma lavadeira brasileira branca, casada com Alexandre, um mulato de quarenta anos, soldado na polícia.

Caracterização de Neném

    Neném é uma lavadeira espigada, franzina e forte, ainda virgem. É filha de Leandra.

Caracterização de Ana das Dores

    Ana das Dores, conhecida simplesmente por "a das Dores", mora sozinha numa casinha à parte, porém toda a sua família reside no cortiço. Ela é casada, mas está separada do marido.

Caracterização de Leandra

    Leandra, conhecida pelo epíteto de "a Machona", é uma lavadeira portuguesa feroz, «gritona, peluda e forte», mãe de duas filhas, uma casada e separada do marido (Ana das Dores) e outra moça virgem ainda, Neném. Tem ainda um filho, chamado Agostinho. Ninguém sabe se é viúva ou separada, porém os filhos não são parecidos entre si.

Caracterização de Leocádia

     Leocádia é casada com Bruno, um ferreiro. Ela é portuguesa, fisicamente pequena, adúltera, pois traíra o marido com um homem chamado Henrique. Em decorrência do adultério, Leocádia sai de casa, deixando o esposo totalmente sem rumo. Deste modo, assim como Miranda, perdoa a traição e vai procurá-la, para lhe pedir que volte para si. A sua atitude justifica-se pelo facto de perder a esposa para outro homem constituir uma humilhação. De acordo com o Código Penal brasileiro de 1890, nestes casos, apenas a mulher era penalizada, sendo o homem envolvido somente considerado adúltero e nada mais.

Caracterização de Dona Isabel

    Dona Isabel é uma pobre mulher lavadeira perseguida pelos desgostos. Fora casada com um dono de uma casa de chapéus que faliu e se suicidou. No cortiço, é muito respeitada por ter modos e maneiras de pessoa fina. Aquando do suicídio do marido, viu-se com uma filha doentinha e fraca nos braços, por quem se sacrificou para lhe proporcionar educação. Essa filha é Pombinha, a flor do cortiço que acaba na prostituição, que a mãe poupa a todo o serviço caseiro, por ordens do médico. Apesar de a filha já ter 18 anos, não a deixou casar com João da Costa enquanto não menstruou pela primeira vez.
    No final da obra, encontramo-la profundamente desgostosa e amargurada por causa da filha, Pombinha, que acaba por se tornar prostituta, após o marido a expulsar de casa depois de descobrir que o traía frequentemente, Porém, acaba por ir morar com a filha por necessidade, tornando-se totalmente dependente dela até à morte.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Caracterização de Maria da Piedade

    Piedade é uma mulher modelar, no contexto dos padrões do patriarcalismo, de trinta anos. Fisicamente, possui uma boa estatura, carne ampla e rija, cabelos fortes de um castanho fulvo, dentes pouco brancos, mas sólidos e perfeitos, cara cheia e fisionomia aberta. Psicologicamente, é subserviente, diligente, sadia, forte, obediente, honesta, correta, fiel, sem qualquer vaidade, vive para o marido e em função dele, dando-se bem com tudo e com todos e trabalhando de sol a sol. O seu perfil é o oposto do de Rita Baiana e de outras mulheres fortes e decididas que vivem no cortiço. Nostálgica, ela conserva os hábitos e a rotina da terra natal, não se deixa contaminar pelo meio, mantém as suas tradições e a esperança de crescer ao lado do marido. No entanto, acaba por ser vencida pela força do meio e, quando o marido se envolve com Rita, tenta fintar a dor da perda, as más influências, a briga com Rita Baiana e a miséria. Assim, acaba por se entregar à bebida e tornar-se alcoólica ao ser abandonada pelo esposo: “[...], Piedade de Jesus, sem se conformar com a ausência do marido, chorava o seu abandono e ia também agora se transformando de dia [...]. Deu para desleixar-se no serviço [...] fez-se madraça e moleirona. [...] aconselharam-Ihe que tomasse um trago de parati. Ela aceitou o conselho [...]; e, gole a gole, habituara-se a beber todos os dias o seu meio martelo de aguardente, para enganar os pesares.” (op. cit., 2004, pp. 191-192).
    De facto, tal como o consorte, a esposa de Jerónimo também sofre uma transformação ao longo do romance de Aluísio de Azevedo. Ela luta contra a influência do cortiço e, inicialmente, consegue vencer essa luta: mantém-se afastada dos vícios e prazeres mundanos. Claramente, contrasta com a personagem Rita Baiana, uma nativa brasileira. Envolvem-se numa disputa pelo mesmo homem – Jerónimo –, mas diferenciam-se pela cor, pelo cheiro, pelos hábitos de vida e também pela linguagem. No fundo, os três constituem um triângulo amoroso que gera conflitos e desemboca numa morte: a de Firmo, às mãos de Jerónimo, que depois foge com Rita. Abandonada pelo marido, Piedade enfrenta grandes dificuldades financeiras e, com isso, a sua filha, Senhorinha, é adotada por Pombinha, o que constitui um paralelismo com o que sucedera com Leonie no passado. Está escancarado o caminho da prostituição para Senhorinha, enquanto à sua mãe resta apenas a perda do marido e os lamentos motivados pelos infortúnios da vida, como se pedisse piedade a Deus, o que é acentuado pelo seu apelido. Quando o esposo a abandona, revolta-se contra a natureza que causou aquela mudança em jerónimo: “[...] não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra aquela amaldiçoada luz alucinadora, contra aquele sol crapuloso, que fazia ferver o sangue aos homens e metia-lhes no corpo luxúrias de bode. Parecia rebelar-se contra aquela natureza alcoviteira, que lhe roubara o seu homem para dá-lo a outra, porque a outra era gente do seu peito e ela não.” (op. cit., 2004, p. 173)
    Fiel ao seu homem e aos seus princípios, ela tinha absoluta certeza de que ele fora seduzido pela vulgaridade de Rita. Para ela, o marido era apenas uma vítima. Jerónimo envolvera-se com a mulata que simboliza o Brasil. Ele "cedeu à atração da terra, dissolveu-se nela e com isso perdeu a possibilidade de dominá-la". Segundo CANDIDO, ao "agir como brasileiro redunda para o imigrante em ser como brasileiro" (2004, p. 119), e, à medida que se entrega ao amor de Rita, o lusitano vai sendo absorvido pela terra, até mudar completamente a sua personalidade. Todas as metáforas usadas para descrever a mulata dão ideia de dominação do elemento brasileiro sobre o português. É a mulher brasileira que enfeitiça e mantém sob seu domínio o português, antigo colonizador.

sábado, 18 de janeiro de 2025

Caracterização de Jerónimo

    Os naturalistas acreditavam que o indivíduo era mero produto da hereditariedade e do meio em que vivia e sobre o qual agia. É o que sucede, no caso da literatura realista produzida em Portugal durante o século XIX, em Os Maias. De facto, Eça de Queirós aborda a questão através das personagens Pedro da Maia e Eusebiozinho, cuja fraqueza, defeitos e comportamentos são justificados pelos traços hereditários, pela educação que tiveram e pelo meio em que cresceram. Voltando a O Cortiço, Jerónimo é a figura que cumpre as leis naturais do meio e da raça, uma personagem que passa por transformações ao longo da narrativa. Jerónimo era um português forte, trabalhador e honesto, que chegou ao Brasil com o objetivo de ascender socialmente, trazendo consigo uma filhinha e a sua mulher, Piedade. Começa por trabalhar numa fazenda onde "tinha que sujeitar-se a emparelhar com os negros escravos e viver com eles no mesmo meio degradante, encurralado como uma besta, sem aspirações nem futuro, trabalhando eternamente para outro" (AZEVEDO, 2004, p. 56). Insatisfeito, resolve abandonar tal atividade e ruma para a Corte onde, conforme os patrícios, o homem determinado consegue obter uma boa disposição. Chega ao cortiço com o intuito de enriquecer. Vive para a mulher e vice-versa. O V capítulo narra a mudança de Jerónimo e da família e a reação da comunidade, nomeadamente os comentários e os cochichos das lavadeiras. Após alguns meses, o casal acaba por conquistar a total confiança dos habitantes do cortiço, por ser sincero, de caráter sério e respeitável. Leva uma vida simples e a sua filha estuda num internato: Aos domingos, vão às vezes à missa ou, à tarde, ao passeio público, ocasiões em que o homem veste uma camisa engomada, calça sapatos e enfia um paletó, enquanto a esposa enverga o seu vestido de ver a Deus.
    Todo o capítulo faz referência às virtudes de Jerónimo. É comparado a um Hércules, tipo clássico-mitológico, robusto, que tinha bastante força e realizara grandes feitos. O português é racional, possui valores morais, está ligado a tradições lusitanas, à família e ao trabalho. Trabalha duro na pedreira de João Romão e distingue-se entre os outros operários, de modo que "o patrão o converteu numa espécie de contramestre" (op. cit., 2004, p. 56). Possui "a força de touro". Jerónimo é, pois, um homem honrado, comedido e mantém um comportamento saudosista de imigrante português, procurando ser fiel às origens, o que se revela no hábito de se sentar à porta, dedilhando os fados da terra natal. "Era nesses momentos que dava plena expansão às saudades da pátria, com aquelas cantigas melancólicas em que a sua alma de desterrado voava das zonas abrasadas da América para as aldeias tristes da sua infância" (op. cit., 2004, p. 59). Porém, Jerónimo começa a sofrer a influência do ambiente sensual e desregrado que caracteriza o cortiço. Tudo começou quando, depois de passar uma temporada com Firmo, seu namorado, Rita Baiana, uma sedutora mulata brasileira (raça e meio) retorna ao cortiço. Esse regresso é marcado por uma festa, na qual Rita acaba por despertar a paixão do português quando entra na roda para dançar: De facto, ela penetrou na roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a deixava ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se se fosse afundando num prazer enorme, em que não se toma pé e nunca se encontra fundo. Jerónimo encanta-se com a dança de Rita, o que provoca os ciúmes de Firmo. "É o fado português de Jerónimo se batendo contra o choro brasileiro do capoeirista Firmo". (MARQUES Jr., 2000, p. 239). Hábil na capoeira, Firmo abre a barriga do rival com uma navalha, fugindo logo depois. O português vai parar ao hospital e, quando sai, chama os amigos e, todos juntos, vão à "praia da Saudade", onde matam o outro a pauladas.
    Rita simboliza o Brasil de campos escaldantes que penetrou na alma de Jerónimo, oriundo de Portugal, um pais de terras frias. O português é um homem de moral rígida, contudo acaba por perder a sua antiga fibra ao entregar-se uma vida indisciplinada. O sol, a natureza, a sensibilidade e o calor da mulata modificaram o seu modo de viver. António Cândido, em O discurso e a cidade, explica que o abrasileiramento de Jerónimo é regido quase ritualmente pela baiana, que o envolve em lendas e cantigas do Norte, lhe dá pratos apimentados e o corpo "lavado três vezes ao dia e três vezes perfumado com ervas aromáticas". Este abrasileiramento é expressivamente marcado pela perda do "espírito da economia e da ordem", da "esperança de enriquecer". A sua paixão violenta é apresentada por Aluísio de Azevedo como consequência das "imposições mesológicas", sendo Rita "o fruto dourado e acre destes sertões americanos". No que diz respeito a esta questão, existe n’ 0 Cortiço um pouco de Iracema coada pelo Naturalismo, com a índia = virgem dos lábios de mel + licor da jurema, transposta aqui para a baiana = corpo cheiroso + filtros capitosos, que derrubam um novo Martim Soares Moreno finalmente desdobrado, cuja parte arrivista e conquistadora é João Romão, mas cuja parte romântica é fascinada pela terra e Jerónimo. Iracema e Rita são igualmente a Terra. Lá, com filtro da jurema, aqui, com o do café, que possui um sentido afrodisíaco e simbólico de beberagem através da qual penetram no português as seduções do meio: "[...] a chávena fumegante da perfumosa bebida que tinha sido a mensageira dos seus amores". (CANDIDO, 2004, pp. 120-121). A atração do português pela mulata é causada pela tropicalidade, a natureza brasileira que foi fundamental para a sua mudança. Mas não é só a natureza que justifica a transformação. De facto, as diferenças raciais também têm um peso considerável, pois a sensual Rita é mulata. Ela representa a raça desagregadora. "No Brasil, quero dizer: n' O Cortiço, o mestiço é capitoso, sensual, irrequieto, fermento de dissolução que justifica todas as transgressões e constitui em face do europeu um perigo e uma tentação" (op. cit., 2004, p. 118). Rita e Jerónimo atraem-se impulsionados pelo determinismo do meio e do sangue (raça). O desejo pela mulata constitui um dos fatores da queda do lusitano, que "abrasileirou-se", como afirma o narrador. O erotismo de Jerónimo demonstra que ele cedeu aos instintos e se nivelou aos nativos brasileiros. Este seu erotismo atraiu o brasileiro, no caso, representado pela mulata Rita, porque o português pertencia a uma "raça superior", a branca. O narrador evidenciou traços de Jerónimo que este mesmo desconhecia, como, por exemplo, na descrição do início dos sentimentos que o português nutre pela brasileira ao vê-la dançar. "Isto era o que Jerónimo sentia, mas o que o tonto não podia conceber [...] só lhe ficou no espírito o entorpecimento de uma desconhecida embriaguez [...]" (AZEVEDO, 2004, p. 78). Enquanto seguidor de teorias científicas, o narrador pode saber o que influencia uma personagem; mas, como razão da experiência, essa personagem não tem ciência do que lhe vai acontecer. No início da narrativa, Jerónimo era bastante equilibrado, mas aos poucos sofre uma grande transformação, pois, influenciado pelo novo meio geográfico (Brasil) e social (a comunidade) em que se integra, chega ao ponto de perder a razão e a sensatez que haviam impressionado os moradores do cortiço. Assim sendo, essa mudança é fruto de um "abrasileiramento" da personagem.

domingo, 12 de janeiro de 2025

O percurso existencial das personagens femininas do O cortiço

    No universo sócio-histórico do Brasil no final do século XIX, o que existia era uma sociedade em grande transformação, na qual a formação da identidade nacional ainda estava sendo alicerçada. Tratava-se de uma sociedade carregada de preconceitos. A literatura de então vem absorver e interpretar esse momento histórico, em obras como O cortiço, de Aluisio Azevedo. Como nos explica Antonio Cândido, “Talvez não haja equilíbrio social sem literatura. Deste modo, ela é fator indispensável de humanização e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade, inclusive porque atua em grande parte no subconsciente e no inconsciente (...). Cada sociedade cria as suas manifestações ficcionais, políticas e dramáticas de acordo com os seus impulsos, as suas crenças, os seus sentimentos, as suas normas, a fim de fortalecer em cada um a presença e a atuação deles.” (Apud CRUZ, 2008 p. 52 – 53).
    Como vimos no capítulo anterior Rita Baiana, Pombinha, Léonie, Estela e Bertoleza são mulheres que vivem nesse quadro sócio-histórico brasileiro, na criação ficcional de Aluísio Azevedo. Resta-nos, agora, ver como cada uma delas vivencia de modo particular essa realidade sócio-histórica.
    Explorando a identidade da “raça” brasileira, Aluísio Azevedo criou a personagem Rita Baiana com grande lirismo sensual, dentro da técnica naturalista de ressaltar os atributos físicos das personagens. Por isso, como representante da mulher brasileira, ela é mestiça, dengosa, maliciosa, generosa, usa da sua dança criativa, alegre e sensual para seduzir e aprisionar os seus amores. O seu percurso amoroso, no enredo do O cortiço, surpreende pelo traçado de grandes conquistas perigosas e traiçoeiras.
    Rita Baiana provoca aquele patriarcado social vigente no Brasil do século XIX, e faz isso por meio de seu comportamento fora dos padrões convencionais estabelecidos para o comportamento feminino. Rita baiana rompe com muitas regras sociais de tutela masculina sobre as mulheres. Ela não se casa oficialmente, não opta nunca pelo matrimônio, mas conquista e aprisiona os seus amores. É solteira por escolha e opção, e sabe como viver suas paixões avassaladoras. Assume explicitamente o papel de mulher livre, que se sustenta sozinha, e nunca fica à mercê de homem algum. Ela não mistura suas paixões com suas contas a pagar, pois se auto-sustenta com a lavagem de roupas, mora sozinha e paga o seu próprio aluguel. Não faz economia, tampouco algo como uma poupança financeira, pois trabalha, tão somente, na medida exata do seu consumo, nada mais além. No mais, vive apenas para desfrutar de suas paixões desenfreadas. Não por acaso, ficou satisfeita com o assassinato do seu amante mestiço, Firmo, planejado e concretizado pelo seu novo amor branco, o português Jerônimo, com quem passou a viver uma paixão tórrida e egocêntrica.
    Não menos avassaladora foi a paixão vivida entre a prostituta Léonie e sua doce afilhada Pombinha. Da somatória de menina doce, ingenuidade e atitudes prestativas à gente pobre e analfabeta do cortiço, com a adolescente letrada, Aluísio Azevedo criou Pombinha como uma personagem emancipada face ao sistema patriarcal e patronal da sociedade brasileira da época. Pombinha, depois de casada, optou por desfazer o seu casamento com seu marido Costa. Essa ruptura deu-se quando ela descobriu a superioridade da mulher frente à submissão egoísta de gestos pequenos do sexo masculino, e isso dentro de um casamento padronizado. Podemos dizer que Pombinha descobriu depois de casada aquilo que Rita Baiana sempre soube: o casamento costuma ser uma opressão para a mulher. Contudo, enquanto Rita Baiana sempre teve uma vida livre, a liberdade de Pombinha, obtida após a ruptura com um casamento marcado por uma vida medíocre, foi a prostituição. Rita Baiana nunca foi prostituta.
    Podemos também pensar que Pombinha se “diplomou” com Léonie, sua “madrinha protetora”, ou seja, ela se especializou como sócia majoritária de Léonie no empreendimento altamente profissional da prostituição. Nas horas vagas, ambas dividem a mesma cama entre si. Como vimos, Pombinha rompe com o domínio masculino, mas isso no que tange ao casamento convencional e padronizado, pois a sua escolha pela prostituição é uma forma de ascensão social que também dependem do mundo masculino. Ela explora, principalmente, os capitalistas e os barões do café, que pagam altas somas em dinheiro para ter as duas prostitutas, Pombinha e Léonie, as mais competentes do Rio de Janeiro.
    Diferente não só de Rita Baiana, mas também de Pombinha e Léonie, encontramos Estela. Ela ainda é aprisionada dentro de um casamento arranjando, uma união interesseira que vive de aparências. Estela não é feliz com Miranda, seu marido parasita, mas não abre mão de sair desse casamento. Ela precisa da figura masculina ao seu “lado”, especialmente do ponto de vista da valorização social, para se auto-afirmar. Ou seja: diferentemente de Rita Baiana e Pombinha, Estela é uma mulher que opta pelo casamento, e que vê nele a única forma de uma vida confortável do ponto de vista material e respeitável do ponto de vista social. Ela não consegue romper abertamente com os padrões sociais do sistema patriarcal, tal como Rita Baiana e Léonie. Porém, Estela também surpreende, pois impõe ao marido o pior castigo que um homem pode viver dentro de uma sociedade patriarcal: ele é traído constantemente pela fogosa e matreira esposa. Estela vive os seus amores bem “escondidos”, tão “escondidos” que não escapa de ser descoberta por um observador mais atento e, principalmente, pelo próprio marido. O que equivale a dizer que Estela consegue, a seu modo, desrespeitar o padrão convencional estabelecido para a mulher dentro do matrimônio. Vimos que Zulmira, a filha de Miranda e Estela, é fruto dessa inconstância amorosa. Estela não gosta da filha por supô-la filha do marido. Miranda não gosta da filha por não ter certeza que é seu pai.
    Miranda casou-se com Estela, por causa do seu dote, e não tem independência financeira para viver bem sem esse dote, por isso Estela tem o marido em suas mãos. Ela é a senhora e dona do seu relacionamento matrimonial com Miranda.
    Bertoleza, como Estela, também está aprisionada dentro de um falso casamento, porém em situação bem pior que Estela. O casamento de Bertoleza é uma amigação de vários anos com João Romão. Se Estela é dona e senhora do seu casamento, Bertoleza é uma verdadeira caixa registradora de armazenar dinheiro para João Romão, com o fruto do seu árduo trabalho.
    Por outro lado, tanto Bertoleza quanto Rita Baiana se deixam empolgar pelo homem branco europeu. Ambas avaliam que o homem branco é um ser superior ao negro, ao mestiço. Mas, ironicamente, é essa suposta “superioridade branca” que leva Bertoleza à ruína financeira, afetiva, moral e social, que a transforma em um burro de carga para o seu querido “Seu João”. Enquanto ele ascende social e financeiramente com o dinheiro do trabalho de Bertoleza, ela decai até a morte, provocada por João Romão, quando, num ato de extremo desespero e dor, por ter sido entregue a seu antigo dono, pelo seu homem branco, Bertoleza comete o suicídio.
    Entretanto, Bertoleza sempre foi fiel em tudo ao seu homem. Ela nunca o traiu, diferentemente de Estela. Tinha grande orgulho dele e sentia prazer em estar ao seu lado. Mas ele João Romão era casado não com ela, e sim com o dinheiro que vinha do trabalho dela. O envolvimento dele com ela representa bem a combinação determinista do homem branco que se aproxima da mulher negra com objetivo exploratório. Bertoleza, dentro da representação literária naturalista, torna-se uma figura grotesca e animalesca; é ferida em sua feminilidade em função de um embrutecimento que a torna um ser inferior. Na sua dignidade ela também é aviltada em função da mentalidade escravocrata. Ela adoece na alma, mas não consegue viver sem aquela figura masculina, representada pelo branco europeu. Segundo Alfredo Bosi, (2003) “o naturalista julga interessante o patológico, porque prova a dependência do homem em relação à fatalidade das leis naturais”. (p. 172).
    Como vimos, Rita Baiana também trocou Firmo, seu amor mestiço, por Jerônimo, um branco europeu. Mas, diferentemente de Bertoleza, Rita Baiana não só conquista Jerônimo, como o deixa de “queixo caído” por ela, graças a sua sensualidade venenosa de “mulher serpente”. Ou seja: Rita Baiana nunca é inferior a Jerônimo, da forma como Bertoleza é sempre inferior a João Romão. Isso estabelece uma grande diferença entre essas duas mulheres negras, bem como entre o tipo de relação que elas mantêm com os homens brancos, considerados racialmente superiores. Rita Baiana, por meio da sedução, é a dona do seu relacionamento amoroso com Jerônimo, tanto que ele cometeu loucuras por ela: matou Firmo, o amante mestiço indesejável de Rita, e largou sua mulher e filha a própria sorte. Enquanto Bertoleza é seduzida por João Romão por que ele vê nela apenas uma força de trabalho. Ela não tem nenhuma influência amorosa sobre ele. Por fim, é claramente visível que, ao final, Rita Baiana é quem destrói Jerônimo moralmente, mas Bertoleza é totalmente destruída por João Romão, que a leva ao suicídio.
    Mas a personagem Bertoleza também é figura com traços de caráter surpreendentes. Aliás, talvez mais até do que todas as outras quatro personagens objeto do nosso estudo: Rita Baiana, Pombinha, Léonie e Estela. Bertoleza surpreende pela sua condição humilde e de escrava humilhada. Apesar de ser analfabeta, ela mesmo assim consegue fazer contas e dirigir com eficiência sua quitanda, de forma a saldar todas as suas contas em dia, e ainda pagar mensalmente uma quantia em dinheiro ao seu dono. Ela consegue poupar para comprar sua carta de alforria, e isso tudo dentro da legalidade da lei. Trabalhava honestamente na sua quitanda, que era bem administrada, pois tinha uma grande freguesia. Bertoleza não sabia, mas era detentora de um alto e refinado talento: ela possuía espírito empreendedor. Portanto, apesar da figura grotesca e animalesca com que aparece no romance, o narrador também aponta em Bertoleza virtudes intelectuais e morais, que existem em seu caráter, ainda que em caráter embrionário. O problema é que tais virtudes, atuantes em Bertoleza quando ela ainda era solteira, quando não vivia sob a tutela do casamento com João Romão, foram totalmente anuladas pelo convívio com o marido. João Romão, e o casamento, foram a desgraça de Bertoleza. A pressão determinista, motivada por preconceito racial e pela mentalidade escravocrata do Brasil de então, encaminhou Bertoleza para João Romão, um homem inferior a ela, mas que era branco. Bertoleza não precisava de João Romão em sua vida. Ele, na verdade, desvirtuou Bertoleza, a qual, de honesta que era, passou até a roubar material de construção da vizinhança, para as obras do cortiço do marido.
    Rita Baiana também sofre a pressão determinista racial, tanto que ela desprezou Firmo, o amante mestiço, por preferir Jerônimo, o europeu branco. Estela, por exigência da sociedade burguesa, permanece junto de Miranda, seu odiado marido.
    Por outro lado, como vimos, o Naturalismo cru de O cortiço não deixa de lado uma escrita marcada pelo lirismo, presente, sobretudo, na caracterização das personagens Rita Baiana e Pombinha, e encontrado no discurso descritivo do narrador quando mostras as danças, vestimentas e conquistas sensuais de Rita Baiana, bem como na cena do mênstruo de Pombinha, que, deitada ao chão, recebe a visita do astro rei enamorado daquela menina-mulher. Acerca desse lirismo no naturalismo, Araripe Junior esclarece: “Assim, os naturalistas brasileiros seriam diferentes dos europeus, por força do clima aqui dominante; isso eliminaria do naturalismo ortodoxo as suas arestas, possibilitaria a sua adaptação ao nosso caso. E assim ocorreria, em realidade, porque os nossos naturalistas, e Aluísio Azevedo principalmente, desobedeciam de forma espontânea a fórmula ortodoxa e externa, oferecendo obras de mérito.” (Apud, CRUZ, 2008, p.39).
    Em suma, podemos dizer que a mais auto-suficiente das cinco personagens femininas aqui estudadas é Pombinha. Isso decorre do fato de ela ser escolarizada. Por saber ler e escrever, ganhou entendimento da vida ao escrever e ler cartas para a gente do cortiço. Somou o seu letramento com a vivência dos dramas humanos descritos nas cartas, e pôde compreender melhor a alma humana. Desta forma, ela rompe com o provincianismo do seu casamento, vai de encontro ao mundo masculino, toma o seu destino em suas mãos, e parte à procura de uma vida com perspectivas mais amplas, dentro que é possível na sociedade da época. No caso dela, essa tentativa de uma existência mais livre desemboca na prostituição. Ou seja: para ela se tornar cosmopolita, a força do determinismo do meio e do momento, prepara-lhe a cilada da prostituição. Pombinha, como prostituta, passa da condição de menina e adolescente pobre, oprimida pelo meio, para a condição de exploradora dos barões do café, juntamente com Léonie. Elas vendiam caro seus copos àqueles honrados e “bem casados” cidadãos.
    Por fim, podemos afirmar que as cinco personagens deste estudo, Rita Baiana, Pombinha, Léonie, Estela e Bertoleza, revelam traços de personalidade surpreendentes, que vão se tornando visíveis ao longo da narrativa de O cortiço. O percurso amoroso de cada uma é singular, dentro de um enredo, caracterizado de grande realismo, que aproxima, em um mesmo universo, mulheres diferentes. Em António Candido (1970), encontramos uma explicação para a composição amorosa dessas personagens: “… a verdade da personagem não depende apenas, nem sobretudo da relação de origem com a vida (...). Depende, antes do mais, da função que exerce na estrutura do romance, de modo a concluirmos que é mais um problema de organização interna que de equivalência à realidade exterior” (p.75).
    Aluísio Azevedo organizou as experiências amorosas de Rita Baiana, Pombinha, Léonie, Estela e Bertoleza, de forma tal, que não deixa dúvidas para o leitor que essas cinco personagens estão bem entrelaçadas com a composição fragmentária do romance. Elas têm ligação direta com o momento sócio-histórico, e, como personagens, estão unidas ao material estético-literário da composição realista-naturalista. Essas mulheres são personagens que ganham vida na união com a composição estrutural do romance, na qual conseguem surpreender de forma positiva no que tange, por exemplo, à autonomia financeira. Nenhuma delas dependem financeiramente de seus pares amorosos, o que é algo raro dentro de uma sociedade patriarcal. Por isso, segundo Antonio Candido (1970), “as personagens planas, na sua forma mais pura, são construídas em torno de uma única idéia ou qualidade quando há mais de um fator neles, temos o começo de uma curva em direção à esfera” (p.62).
    Portanto essas cinco mulheres iniciam, cada uma delas, um percurso amoroso, e fazem uma curva na escala: de personagens planas para esféricas. Elas continuam subindo na curva esférica, através do comportamento social não padronizado, com exceção de Bertoleza. Mas, Bertoleza, por seu lado, é a única a surpreender pela fidelidade amorosa dedicada a seu par amoroso. Rita Baiana, Estela e Pombinha continuam subindo na curva esférica das personagens, pois a três tem o mando dos seus relacionamentos amorosos. Já Bertoleza também alcança o maior grau na curva esférica, por seu espírito empreendedor, na gestão honesta e competente da sua micro empresa, sua quitanda, fato extraordinário dentro da sociedade patriarcal. Já Léonie trouxe consigo, da França para o Brasil, o glamour e a experiência da prostituta francesa. Ela consegue surpreender pela audácia traiçoeira, no desvirtuamento moral e sexual de sua afilhada Pombinha.
    Todas essas cinco mulheres conseguem surpreender; umas mais, outras menos, mas nenhuma fecha a curva das personagens esféricas, pela cilada do determinismo da raça, do meio e do momento, e sendo assim não conseguem mais avançar nas suas ações.

Fonte: Rita Chapsky, in «O Pecurso Existencial das Personagens de O Cortiço». São Paulo. 2010.
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